terça-feira, 26 de janeiro de 2010

hibernar...

Durante o "vazio pós-viagem", quase resolvi ir para casa da família, levar um monte de livros embaixo dos braços e um computador na mochila, para concluir algumas tarefas do doutorado... Mas, no domingo, fui na comunidade Doze Tribos, contei do meu sentimento de vazio e uma das amigas que tenho lá me disse: "é simples resolver esta crise: tem dois tipos de vida, esta aqui e aquela lá. Se você vive naquela, tem que fazer tudo para viver bem naquela. Se quiser viver nesta, tem que largar aquela e viver tudo de bom que esta tem para oferecer. O que não pode é ficar encima do muro". Pronto! Eu escolhi a vida de cá... E estou fazendo tudo "certinho" conforme a "cartilha" manda... E, enquanto estou tentando na vida de cá, não posso ficar comparando-a com a vida de lá. Então, uma das situações que tenho enfrentar se refere a vida de mulher que mora sozinha. Não posso fugir desta realidade e enfiar-me na casa da minha família. Então resolvi hibernar! Para isso fui comprar alguns filmes piratas, frutas, saladas, legumes e um pote de sorvete, afinal de contas, ninguém é de ferro!... Vou concluir as tarefas do doutorado, assistir a "meia dúzia" de filmes que comprei no camelódromo e, nos intervalos, ler alguns romances. Não preciso arrumar nada para fazer pois já tenho muito o que fazer. Não preciso sair por aí visitando pessoas, só para fugir um pouco da solidão (estarei pronta para receber visitas, isso sim!)... É claro que sairei para caminhar todas as manhãs e sentir o sol no rosto!

domingo, 24 de janeiro de 2010

O vazio pós-viagem

Sempre depois de uma viagem sofro do sentimento de profundo vazio... um vazio cortante que dói na alma. Hoje acordei com a frase: “Por que o sol nasceu de novo e não amanheceu?”, da musíca do Raul Seixas (música, que a meu ver expressa o vazio das almas, o vazio da vida). Este sentimento de vazio me acompanha cotidianamente, mas tem altos e baixos, todavia, se intensifica depois das viagens que faço. Parece que durante as viagens a vida é outra. A vida é movida pelo desejo do novo. A vida é movida pelas expectativas, muitas vezes ilusórias. No final das viagens, o sentido se volta para o retorno à casa... Quando chego em casa curto tudo... mas, logo depois, sinto-me como hoje: o vazio tomando conta dos pensamentos. A viagem acabou. A casa esta igual. A minha vida é a mesma. Quando penso assim, só tenho em mente o tempo que estou perdendo ao não ir viver nas Doze Tribos. Sou uma medrosa, uma covarde, uma cética... Não sei se seria feliz naquele lugar, mas tenho convicção de que aquelas pessoas são mais felizes que eu. Os anos irão passar e continuarei olhando para a hipótese de ir viver na comunidade. Mas a ultima chance que dou para mim no "mundo real" está no doutorado. Tenho que apostar em algo, para minimizar o vazio... Talvez o problema seja esse... Eis um texto que não pode ser divulgado. Se alguém entrar no blog e ler tudo bem, mas este segue calado, sem muito alarde, pois nele assumo minha loucura, minha carência, minha fragilidade, minha solidão, enfim, o vazio de minha alma. Vamos ver como estarei daqui 3 anos. Mas hoje, 24/01/2010, “o sol nasceu de novo e não amanheceu”.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

... além da fronteira do Paraguay




Ultrapassei a fronteira do Paraguay. Eu e duas amigas construímos a viagem. Para elas, o conhecimento de mais uma parte da América Latina, a vivência das emoções da latinidade que está a flor da pele e, é claro, cada uma com uma motivação única, particular, inexplicável por terceiros. Para mim, além do que me unia as amigas, a viagem foi o início de uma pesquisa de campo. Ao iniciar a investigação sobre a exploração da força de trabalho de adolescentes como “mulas” em uma rota de tráfico internacional, descobri dados e vi que nas regiões norte e oeste do Paraná, há inúmeras apreensões de meninos e meninas. Li bastante sobre fronteira, drogas ilícitas, crime organizado e descobri que o Paraguay é o pais que fornece 60% da maconha utilizada no Brasil. Então percebi que precisava conhecer este país, afinal de contas, a rota de tráfico internacional existente no estado do Paraná decorre desta fronteira. Aprendi com meus amigos geógrafos que ir a campo é mais que entrevistar e levantar dados. Ir a campo é sentir. Sentir a realidade estudada. Um fenômeno estudado possuí elementos além da nossa percepção inicial. Fomos de carro até Foz do Iguaçu, a estrada já foi elemento de reflexão. Pensei que fosse me deparar com blitz policiais na região, porém, não encontramos nenhuma. Então ficou a pergunta: porque há tanta apreensão de adolescentes com pequenas cargas de drogas? E os carros, caminhões, caminhonetes com carregamentos de drogas? Quem controla? Perguntas... Perguntas... e mais perguntas... Deixamos o carro em Foz, na casa de uma amiga da minha amiga (!) e atravessamos a fronteira de ônibus circular, tudo muito tranqüilo. Passamos direto sem o carimbo do passaporte. Tivemos que voltar para a Aduana, carimbamos. Pegamos um ônibus pinga-pinga (ao cubo) até Assunción. Observei. Observei. Observei pela janela. Vi os paraguaios, povo trabalhador, latino, com aparência indígena. Cores. Sorrisos. Pequenos povoados. Pessoas com expressão sofrida. Chipeiras entrando e saindo dos ônibus. Muitas vezes senti-me no nordeste brasileiro, onde a pobreza é mais aparente que outros lugares. Digo mais aparente, pois como canta Ney Matogrosso, “de Porto Alegre ao Acre, a pobreza só muda o sotaque”. O Paraguay é mais pobre que o Brasil? Claro que sim... mas a pobreza tem a mesma cara. A mesma cara de sanha, como bem ilustra João Cabral de Melo Netto em "Morte e Vida Severina", somos todos severinos! Ao sentir o Paraguay, senti o peso de minha pesquisa. Como refletir sobre a exploração dos meninos no tráfico de drogas existente na fronteira Brasil - Paraguay, como compreender as plantações de maconha no Paraguay sem refletir sobre a realidade daquele país? Sem senti-lo? Ao chegarmos em Assuncion, vimos uma bela capital. Uma capital como qualquer outra, todavia, com duas particularidades: calor demasiado e pouco investimento em turismo. Sim... eu também estava fazendo turismo. Tudo que via, ouvia, observava me servia como pesquisa de campo, mas também estava a passeio, então queria visitar museus, pontos turísticos e os passeios foram meio estranhos. Museus fechados. Igreja fechada. Poucas informações e incentivos para passeio. Mesmo assim, uma das amigas que já havia passado por lá, soube indicar lugares bonitos para passearmos. Comemos chipas e empanadas! Tomamos mate gelado com ervas e especiarias guaranis. Ficamos na casa da irmã de um amigo. Sentimos o cotidiano de uma jovem mulher, profissional liberal, Paraguaya. Tomamos café, conversamos, perguntamos tudo sobre tudo! Os meus amigos, o irmão da hospedeira, sua esposa, que também é umagrande amiga e seu filho, chegaram em Assunción no dia que iniciávamos uma nova jornada: a aventura até Laguna Blanca. Um lugar que até então, fez parte do nosso imaginário como algo muito bonito, que valia a pena qualquer esforço para chegar até lá. A pousada não tinha mais vagas, então batemos pernas atrás de uma barraca. Seguimos para uma cidade chamada Santa Rosa. Cidade que está em crescimento, mas para mim, aquele lugar significava um dos “cantos do mundo”. Muito estresse. Mais observações. Rodovias que se cruzam. Uma que vem da fronteira do Mato Grosso; outra que leva até a fronteira com o Paraná; outra que chega de Assunción. Vi bancos, casas de cambio e, como não poderia ser diferente, muita pobreza. De Santa Rosa, subimos em um ônibus e viajamos por mais 23 km. Adentramos em uma região camponesa, pessoas em suas varandas tomando mate. Um pouco mais de pobreza. Depois disso, descemos na entrada de uma fazenda e fomos com mochilas, peso, cansaço (caminhando debaixo do sol do meio dia) 4 km até a Laguna Blanca. Ao chegarmos lá, não encontrei nada de extraordinário. Uma lagoa linda, com águas cristalinas, mas nada espetacular para quem vive no Brasil. O cansaço traz um certo mau humor... O cansaço esgotante, fez com que eu aproveitasse apenas no segundo dia. Curtimos a Laguna, rimos... dois dias foi o suficiente! Voltamos para Ciudad Del Este. E o retorno a Ciudad Del Este era o que mais me atraia. Voltar para fronteira. Pensar em meu objeto de estudo. Observar a Ponte da Amizade e os jovens que por lá atravessavam. Quantos deles estavam apenas comprando coisas para seu uso? Quantos deles estavam fazendo contrabando? Quantos carregando drogas em suas caixas? Por outro lado, quantos carros, caminhões, aviões saíam da fronteira Brasil - Paraguay com toneladas da entorpecentes? Ir ao Paraguay... Sentir o Paraguay... Observar o Paraguay, fez-me olhar muito mais para a América Latina... Para o Brasil... Para o Paraná... Para Foz do Iguaçu... Para Cascavel... Para Londrina... Para os meninos e meninas, brasileiros (e, é claro, paraguayos), que são explorados por um mercado movimentado e cruel. Que servem como “mula de carga” para o transito ilícito de drogas, mercadorias, armas. Que encontram neste mercado ilegal, trabalho. Sim... ultrapassei a fronteira e voltei. Este é apenas o começo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

estoy en Assuncion!

estou em assuncion! muito calor e historias para compartilhar!

besos

domingo, 10 de janeiro de 2010

E quando um “doce vampiro” suga a energia vital?


“Venha me beijar, meu doce vampiro. Oh, oh, na luz do luar. Venha sugar o calor, de dentro do meu sangue vermelho. Tão vivo, tão eterno veneno. Que mata sua sede. Que me bebe quente como um licor. Brindando à morte e fazendo amor. Me acostumei com você, sempre reclamando da vida. Me ferindo, me curando a ferida. Mas nada disso importa. Vou abrir a porta pra você entrar. Beijar minha boca, até me matar... de amor!”, Rita Lee, canta com maior clima de romance... O que pode significar o sague, além de energia vital? Quando falamos: dei meu sangue! Estamos dizendo: fiz de tudo, entreguei tudo... E vampiros, o que são? Uma explicação rasa de internet, diz que vampiro é um ente mitológico que se alimenta de sangue humano, não pode sair a luz do sol, pode desaparecer numa névoa e possuí um poder de sedução muito forte. Então eu me pergunto, a música da Rita Lee seria apenas a expressão de uma relação sado-masoquista? Não... A meu ver é muito mais que isso... Amar um vampiro é muito mais masô, que sadô... Ser um vampiro é muito mais sadô, que masô. Um dia, há muito tempo atrás (a ênfase que se dá ao "muito tempo atrás" decorre de um tempo que não depende do relógio, mas da dialética!), ouvi esta música e me identifiquei plenamente, então saquei: eu amo um vampiro. Chorei, quis entender mais... Quis saber o porquê de amar alguém que só sugava... E, pior que isso, sentia prazer em amá-lo, sentia prazer na dor. Havia me acostumado com aquele homem me maltratando, reclamando da vida, me ferindo e me curando as feridas causadas por ele mesmo. Causadas por mim, por permitir que ele as causasse. Como essa vivência poderia não importar ao ponto de deixar a porta aberta para ele entrar? Como brindar a morte e, ao mesmo tempo, fazer amor? Entrei numa batalha ferrenha para me proteger do Vampiro... Chorei tudo, xinguei tudo... Fiz besteiras imensas, quase insanas! E, me perdoem as feministas Patrícia Galvão (Comunista), Simone de Beauvoir (Existencialista), Emma Goldman (Anarquista), pois, fui ler livrozinhos idiotas de auto-ajuda... E me perdoem mais uma vez, mas eles fizeram sentido . Os livrozinhos idiotas mostraram o padrão masculino/femino e responderam algumas de minhas perguntas, na busca particular de saber o que me prendia a um Vampiro (acho que isso é o mais triste dessa história: livrozinho de auto-ajuda fazer sentido é muito fim de carreira!). Agora o livro que mais me levanta como mulher, aproveito e indico para todas as mulheres e homens que queiram respeitar mulheres: “Mulheres que correm com os Lobos” de Clarissa Pinkola Estés (uma younguina muito boa... ), este sim vale a pena! Lá ela não trata do Drácula, mas fala bastante do Barba Azul, que a meu ver, tem o mesmo sentido arquétipo... Sinto que não sou a única mulher que passou pela experiência de amar um vampiro... Se você descobriu que ama um vampiro, preste atenção em algumas questões. Só conseguimos nos proteger dos vampiros depois de muito esforço para o resgate da energia sugada. Retomar a criatividade perdida e a percepção sobre si mesma, não é tarefa fácil. E, se derrepente você vê o vampiro com outra mulher, fica triste e pensa: “parece que ele esta entregue, esta assumindo um relacionamento, tudo indica que agora ele não esta sugando”. Parece que o homem está assumindo muito mais a posição de São Francisco de Assis que de Drácula, essa percepção traz aquele vazio de volta, o vazio que o Vampiro deixava e preenchia quando bem queria. Bate aquela dor profunda e a pergunta atormenta a mente: porque ele só me sugou? Esqueça disso! Nada de dor por conta de um vampiro do passado. Eu falo isso para mim mesma todos os dias. Se ele suga ou troca com outra mulher, não importa. O que importa é a relação que estabeleceu com você e você com ele...(uma notazinha para não me acusarem de maniqueísta: também existem mulheres Vampiras, homens tomem cuidado!!!!!) Preste atenção: se o cara foi um Vampiro contigo, continuará sendo (talvez seja Vampiro com as outras também, afinal de contas, os Vampiros são imortais)... Nada de deixarmos morcegos circulando nossa vida. Nada de permitirmos que Vampiros antigos tirem uma gotazinha de sangue. Nada de abrirmos para que novos Vampiros suguem nossa alma. Por isso, andemos com crucifixo, alho e estacas na bolsa, pois os Vampiros não são doces, mas nosso sangue sim!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

sobre o texto abaixo

... escrevi o texto abaixo antes do final da história... o final da Dalva tem tudo haver com o final da Maísa: alcoolismo e automóvel...

Maísa, Dalva e Andréa

antes de iniciar o texto, devo oferecer uma nota ao leitor ou leitora (acho que quase ninguém lê este blog, mas em todo caso vale a pena alertar!): estou falando de duas mini-séries da Rede Globo, isso mesmo... Falando das histórias apresentadas e das sensações que me trouxeram. Não conheço a história "sem fantasias" de Maísa, muito menos de Dalva... Mas, olhando as mini-sérias como filmes, pude refletir sobre as personagens centrais e sobre mim mesma...


... no ano passado, a Rede Globo, como todo janeiro, lançou a mini-série Maísa, a história de uma mulher a frente de sua época, livre, louca... Mulher muito admirida por mulheres progressitas, pois disse não aos padrões. Estranhamente, ao assistir alguns capítulos, vi que não sou tão progressita como pensava. As atitudes de Maísa, principalmente, para com seu filho, me trouxeram uma certa repulsa, e isso fez com que eu me sentisse mal, pois deveria admirá-la, mas, ao contrário disso, fui muito mais conservadora que imaginava... Maísa cantava sua dor, envolvia-se em escanda-los, viciou-se... levou a vida "pseudamente" livre... Vi naquela história muito mais exemplos de derrota que conquista.
... este ano, a Rede Globo, como de costume, lançou sua nova mini-série: "Dalva e Herivelto". História de um casal, que também marcou uma época. Um amor louco, repleto de conflitos. Diferente de Maísa, Dalva de Oliveira, apresenta muito mais características de sua época... Mulher que via as traições do marido, chorava, brigava, agredia, mas não tinha a coragem de romper, pois o amor, o louco amor, falava mais alto... Mas,vi em Dalva atitudes muito mais progressistas que em Maísa... Dalva de Oliveira, transformou sua dor em música (como Maísa)e vingou-se do ex-marido com suas melodias encantadoras... Deprimiu-se, alcoolizou-se mas continuou em pé... Dalva gritou: eu existo sem você! Mais que isso: Dalva provou que existia sem ele.
Maísa, liberdade acima de tudo, vários amores. Dalva, amor incondicional, entrega plena.
O jeito de amar da Dalva parece muito com o meu. O amor é intenso, intenso, intenso, que torna-se um fardo... um peso para alma. O amor é unicamente dedicado a uma pessoa. Tem um dono. A dor decorrente do fim da esperança, dilacera, corta fundo, mata por dentro. Mas a dor também serve para tempeirar a gana de subir novos degraus. A gana de dizer: eu sou! Eu existo!
A dor é intensa. A revolta amarga. A desilução mortificante. Mas a força que vem, sabe-se lá de onde, é reveladora.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

um arquétipo feminino

...hoje vi uma exposição de orquídeas em um pequenino shopping aqui de Londrina... ao contemplar as flores, fiquei observando como a orquídea pode ser considerada como um arquétipo do feminino... é perfeita!


sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

algumas reflexões sobre a comemoração do Natal

O texto do Mario Mestri, que postei abaixo, é um pouco radical, mas fez-me pensar nos porquês que o natal tem sido, cada ano mais, festa vazia para mim. Sobre a figura de Jesus, sendo um mito, ou não, ainda admiro em alguns aspectos... Outra questão que ele critica e que ainda vejo como positiva se refere as festas familiares, pois nem isso temos mais... mas no resto: ausência de historicidade; monopólio do cristianismo; individualismo; consumismo; e muitas outras questões, as quais fazem com que o natal seja uma festa praticamente obrigatória, mas sem significado real para os adeptos a outras crenças, os ateus e atoas (que é meu caso), que são obrigados a engolir presépio cristão e papai noel norte americano em cada canto do mês de dezembro! Se eu tivesse filhos, como faria para romper com esses mitos? As escolas, que deveriam ser laicas, mantém tais mitos como verdades... e na festinha de final de ano, contratam um homem (na maioria das vezes, um ferrado desempregado que se submete a uma roupa quente, toca e barba sintética em pleno verão) para presentear as crianças...
Enfim: é difícil correr!

Por que não festejo e me faz mal o Natal (Mário Maestri)

Não festejo e me faz mal o Natal por diversas razões, algumas fracas,outras mais fortes. Primeiro, sou ateu praticante e, sobretudo, adulto. Portanto, não participo da solução fácil e infantil de responsabilizar entidade superior, o tal de "pai eterno", pelos desastres espirituais e materiais de cuja produção e, sobretudo,
necessária reparação, nós mesmos, humanos, somos responsáveis. Sobretudo como historiador, não vejo como celebrar o natalício de personagem sobre o qual quase não temos informação positiva e não sabemos nada sobre a data, local e condições de nascimento. Personagem que, confesso, não me é simpático, mesmo na narrativa
mítico-religiosa, pois amarelou na hora de liderar seu povo, mandando-o pagar o exigido pelo invasor romano: "Dai a deus o que é de deus, dai a César, o que é de César"!
O Natal me faz mal por constituir promoção mercadológica escandalosa que invade crescentemente o mundo exigindo que, sob a pena da imediata sanção moral e afetiva, a população, seja qual for o credo, caso o tenha, presenteie familiares, amigos, superiores e subalternos, para o gáudio do comércio e tristeza de suas finanças, numa redução miserável do valor do sentimento ao custo do presente.
Não festejo e me desgosta o Natal por ser momento de ritual mecânico de hipócrita fraternidade que, em vez de fortalecer a solidariedade agonizante em cada um de nós, reforça a pretensão da redenção e do poder do indivíduo, maldição mitológica do liberalismo, simbolizada na excelência do aniversariante, exclusivo e único demiurgo dos males sociais e espirituais da humanidade.
Desgosta-me o caráter anti-social e exclusivista de celebração que reúne egoísta apenas os membros da família restrita, mesmo os que não se freqüentaram e se suportaram durante o ano vencido, e não o farão, no ano vindouro. Festa que acolhe somente os estrangeiros incorporados por vínculos matrimoniais ao grupo familiar excelente, expulsos da cerimônia apenas ousam romper aqueles liames.
Horroriza-me o sentimento de falsa e melosa fraternidade geral, com que nos intoxica com impudícia crescente a grande mídia, ano após ano, quando a celebração aproxima-se, no contexto da contraditória santificação social do egoísmo e do individualismo, ao igual dos armistícios natalinos das grandes guerras que reforçavam, e ainda reforçam - vide o peru de Bush, no Iraque - o consenso sobre a bondade dos valores que justificavam o massacre de cada dia, interrompendo-o por uma noite apenas.
Não festejo o Natal porque, desde criança, como creio para muitíssimos de nós, a festa, não sei muito bem por que, constituía um momento de tensão e angústia, talvez por prometer sentimentos de paz e fraternidade há muito perdidos, substituindo-os pela comilança indigesta e a abertura sôfrega de presentes, ciumentamente cotejados com os cantos dos olhos aos dos outros presenteados.
Por tudo isso, celebro, sim, o Primeiro do Ano, festa plebéia, hedonista, aberta a todos, sem discursos melosos, celebrada na praça e na rua, no virar da noite, ao pipocar dos fogos lançados contra os céus. Celebro o Primeiro do Ano, tradição pagã, sem religião e cor,quando os extrovertidos abraçam os mais próximos e os introvertidos levantam tímidos a taça aos estranhos, despedindo-se com esperança de um ano mais ou menos pesado, mais ou menos frutífero, mais ou menos sofrido, na certeza renovada de que, enquanto houver vida e luta, haverá esperança.

La Insignia. Brasil, dezembro de 2006.