segunda-feira, 2 de abril de 2018

Vida feita por momentos: certeza da finitude e incerteza de quando ela virá

A vida sempre nos mostrando que é feita por momentos, não por fase. Não posso deixar de materializar por meio de palavras o que estou sentindo... Desde o meu aceite para desenvolver o pós-doutorado na Escola de Serviço Social da UFRJ (realização de um sonho) acreditei que viveria uma fase maravilhosa... Somar pós doutorado e a oportunidade de estar junto com meu companheiro por seis meses de fato é algo muito, muito, muito extraordinário para nós, eu, ele e, principalmente, Janjão. Até o dia 16/03/18, primeiro dia da licença, trabalhei feito louca para deixar as coisas na UEL mais ou menos em ordem. Esse “mais ou menos em ordem” diz respeito ao fato de que para sair em licença acabamos sobrecarregando colegas, especialmente aquelas pessoas que já estão sobrecarregadas (meu muito obrigada a colegas que de maneira direta estão fazendo com que essa licença seja realidade, Eliana, Lorena, Olegna, Dione e Ana Patrícia... essas que irão tocar “meus” projetos por seis meses. Além disso, a nova equipe do colegiado que componho, em nome da Melissa e Mabel agradeço a todas, pois tocarão esses seis meses sem minha “ajuda”). Deixar coisas acontecendo não foi fácil (e não está sendo)... Deixar projetos que foram minha motivação em 2017 por conta da alegria de compartilhar com estudantes tão lind@s, me exigiu um bom exercício de desapego. Além disso agradeço profundamente minha família que se dispõe a cuidar do Janjão com todo amor e carinho nos momentos que preciso... Meus pais, minhas irmãs, meus sogros, gratidão por todo amor que tem pelo meu filho! No mais, tudo correndo bem, maravilhosamente bem... Confesso que estava com medo da violência do Rio, pois a morte e significado da morte de Marielle foi muito forte para mim. Mas abri o pós-doutorado com chave de ouro no Seminário “Sistema de Justiça e Saúde Mental: que relação é essa?”, no qual pude ter a certeza de que o grupo Transversões da UFRJ, que agora componho, é um grupo sério e gerador de processos. Depois tive a sorte de participar do evento de pesquisadores da pós-graduação da UFRJ, que mesmo sendo um evento de pesquisadores, foi um evento que propôs muito mais que o lattes pede... Um evento gratuito com o tema: “Lutas e Resistências em tempo de conservadorismo”, com conferencistas de várias partes do mundo que discutiram Brasil e América Latina... Pude ver Zé Paulo defendendo costas raciais e falando que o negro precisa conhecer sua história (logo, as disciplinas que discutem historia da África e afro-brasileira, são essenciais). Pude também contemplar Marilda Iamamoto falando de pesquisas que ainda desenvolve, sendo homenageada, pois depois de aposentar-se na UFRJ, agora se aposenta na UERJ. Pude dançar jongo ao lado de Marilda Iamamoto e Yolanda Guerra. Essa experiência de estar na UFRJ me mostra que as “estrelas” do serviço social são docentes universitárias, que se deparam com desafios cotidianos como aqueles que nós, docentes da UEL nos deparamos... São pessoas trabalhadoras, envolvidas e dedicadas na história do Serviço Social, história essa que também componho, que compomos... Quebrar preconceitos é o desafio. Prenconcitos também que se referem a minha auto-estima, a dúvidas no que tenho para oferecer.... Neste ponto vivenciei experiência extraordinária, fazendo uma fala sobre minhas pesquisas para estudantes de uma sala da graduação da UFRJ, que se interessaram pelo debate, fizeram perguntas, foi muito legal! Também já tenho três vivências marcadas para abril: uma banca de doutorado, dividir uma fala com o Zarconne (que é um cara que leio!) em disciplina especial sobre Direitos Humanos e compartilhar uma mesa sobre pesquisa acerca da Política de Drogas Serviço Social. Tudo isso graças a Rita Cavalcante! No mais, estou convicta que tive muita sorte (sorte mesmo!) de ter sido aceita por Rita e Eduardo para o desenvolvimento do pós doutorado... São pessoas humanas, lindas, que fazem com que o afeto componha a vida acadêmica. Sei que irei aprender muito com el@s! Enfim, tudo caminha bem, muito, bem, então penso: estou em uma fase boa! Aí ontem a energia que move o mundo mando um recado: “a vida é feita por momentos, não por fases”... Vivi uma situação daquelas que por sorte não aparecem nos jornais, pois se aparecessem seria para mostrar tragédia total. É o 8 ou 80 rodeando nosso cotidiano. Então vai a história detalhada... Quando agendei minha ida para o Rio, já sabia que precisaria de meus pais para cuidarem do Janjão aqui em Londrina ou lá em Bauru. Não deu para virem em Londrina, então fui para Bauru... Janjão ficou lá enquanto estive no Rio. No decorrer dos dias soube que a creche esperaria o pequeno voltar para tirar uma foto com a decoração de Pascoa (foto que irá compor o álbum de formatura da pré-escola!)... Então mudei minha passagem de retorno, que estava agendada para dia 02/04 às 01h30 da madruga, para dia 01/04 às 15h30... Ao chegar na rodoviária, soube que houve uma confusão e a pessoa que mudou a passagem me enviou que estaria certo para as 15h30, mas na verdade modificou para as 14h... Cheguei na rodoviária as 15h e o “rolo” se instalou (curiosamente não briguei, como costumo fazer!), a única saída foi um bus para as 18h30... Topei, voltei para a casa dos meus pais bem frustrada, mas ainda satisfeita por terem conseguido passagem para domingo mesmo... Voltei para rodoviária, e com atraso encostaram dois ônibus para Londrina, um as 18h30 e outro as 18h31... descobri que o meu era segundo. Sem problemas, eu e Janjão entramos no ônibus felizes da vida, pois depois de duas semanas, voltar para casa é tudo de lindo! Mas o universo tinha um recado para mim e para quem estava no ônibus... Sofremos um pequeno acidente, que poderia ter sido muito grande. Era 20h, chegávamos em Ourinhos/SP, ou seja, há uns 120 km de Bauru, chovia muito... Senti que o motorista jogou para esquerda. Alguns segundos depois ouvimos o barulho da batida. Levantei e percebi que ele estava parado na lado esquerdo da pista (que era dupla)... No mesmo segundo, passou um caminhão gigante pela direita, daqueles com dois carros, que carrega óleo ou substâncias químicas (carga perigosa)... O bicho passou correndo e parece que jogou para o acostamento. Na hora pensei que o motorista havia jogado à esquerda para fugir do bichão, que talvez estivesse desembestado, atropelando todo mundo. Depois descobri que foi de fato uma batida. Ele foi ultrapassar um carro. A motorista do “titubiou” por conta da chuva e acabou perdendo o controle, atingindo o ônibus. No final, não foi nada grave, pois todos seguiram até o posto policial. Mas o caminhão não saia da minha mente. Se o ônibus tivesse parado na transversal, certamente eu não estaria contando essa história hoje... Seria sim notícia de telejornais nacionais. Vivi aquele instante que a gente vê a vida por um triz e tem a convicção de que nada está totalmente posto ou definido. Ver o Janjão dormindo ao meu lado sem saber de nada me dava uma sensação de alegria e também de medo. Medo do que vida me reserva. No final das contas, nossa viagem atrasou duas horas e meia, pois ficamos duas horas no posto da policia rodoviária para fazer o boletim, etc... Eu fui a única testemunha no boletim de ocorrência, pois somente eu verbalizei a questão do caminhão passando pela direita. Questão essa que foi bem favorável para o motorista, pois a moça do carro disse que foi ele quem invadiu a pista da direita. Quem estava certo ou errado? Não sei... Só sei que o ocorrido foi de fato um acidente. Um acidente que poderia ter sido manchado de sangue. O trecho do local do acidente até o posto da Polícia Ferroviária foi muito difícil. Olhava para aquela vidinha do meu lado e de outras três crianças no ônibus e me dava vontade de dizer: pare essa porra! Vamos parar e esperar a chuva parar, o sol nascer e a segurança transbordar. Já passei umas três ou quatro vezes pela sensação da morte bem perto. Situações que trazem a certeza da finitude e incerteza do dia em que ela pode acontecer. Enfim, tudo deu certo no final, o que fica são experiências e reflexões... E, depois de três horas de atraso, o ônibus enfim chegou em Londrina.. E eu: “- Janjão, chegamos em Londrina!” Ele: “- que legal mamãe, foi rapidinho!”. Isso é vida! Vida vivida dentro da dialética de suas contradições... Hoje estou muito assustada com o risco eminente da finitude a grata por poder contar essa história. Não sei se alguém vai ler, mas tinha que colocar para fora! Obrigada Janjão por renovar minha vida, obrigada Nego, por ter me dado essa renovação! E, findo com a potente frase de Guimarães Rosa em Grande Sertões Veredas: “viver é um risco”!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Simulacro da comunicação

Sentei no corredor e um bom ângulo de visão permitia que eu visse todos os cliques daquele jovem de uns 18 anos. Um jovem bonito, com uma camiseta bem branquinha, calça caqui e tênis novinho de marca. Ele usava os polegares com uma velocidade impressionante. As vezes, voracidade. Pra cima e pra baixo, sinais de jóia, kkk´s, sorrizinhos. Via vídeos de outros jovens como ele, ouvindo-os com um fone. Ria sozinho. Eu dormia, acordava e lá estava ele freneticamente com o aparelhinho nas mãos. Em uma de minhas olhadelas levei um susto, pois estava vendo um videozinho pornô caseiro. Fiquei meio sem graça, disfarcei e parei de olhar. Dormi mais um pouquinho. Foram onze horas de viagem. E lá estava ele, comunicando-se, comunicando-se, comunicando-se. Mas na real, na real, bem na real, nenhum sorriso para o lado, nenhum boa tarde, nenhum boa noite, nenhum por favor, nenhum dá licença, nenhum obrigado, nenhum “que calor”. Só silêncio e indiferença. E o simulacro da comunicação estava ali em suas mãos. E ele acreditava que se comunicava.

quarta-feira, 1 de março de 2017

velando o amor no carnaval

Nem é quarta-feira de cinzas, mesmo assim estou velando o nosso amor. O amor que estava velho, a deriva em um barco a vela. Os sopros, cada um para seu lado. O velho amor que não era mais nosso, mas sim de cada um à sua maneira. O momento que revela que o amor estava velho, cansado, distante, perdido, que mesmo a vela do barco não poderia conduzir. Com ventos opostos impossível resistir sem afundar. Velar o amor no carnaval é assumir que resta pouca alegria, pouca cor, pouca risada, pouco prazer, pouca carne, pouca alma. Ventos e caminhos opostos, mas que terão que se convergir na estrada rumo ao filho, que precisa de caminho. Sim, velo o nosso amor que estava velho. Mas olho para frente, para a estrada, para o mar, para o barco a deriva e penso que os ventos podem se somar quando cada um for feliz e puder transportar ventos fortes e livres para que o filho possa navegar e caminhar a passos firmes. Andrea Rocha 28/02/2017, dia de carnaval mais triste de minha vida.

terça-feira, 5 de março de 2013

Nascimento do João Pedro: nosso rebento rebentou!

Os meses da gestação passaram tranquilamente, com pouquíssimas intercorrências, quase nenhuma, pra dizer a verdade... Entramos na 37ª. semana de gestação e a ansiedade começou pegar. Escolher o parto normal traz consigo inúmeros elementos objetivos e subjetivos. O normal não é visto com normalidade... Falar para as pessoas que já estava com 39 semanas esperando o parto normal parecia coisa de outro mundo. A pressão estava grande. Eu mesma me pressionava e pedia todos os dias “nasce João Pedro! Nós te amamos e queremos você aqui”... Com isso, acho que levei um pouco de pressão para o João Pedro também... No dia 19/02/13 acordei mais ansiosa que nunca, estava com 39 semanas e 5 dias... Na parte da manhã o Zé Francisco me convidou para ir ao clube relaxar na piscina. Não estava muito calor, mesmo assim arranquei forças do nada e fui com ele... Foi bom, relaxei por lá, caminhei na agua, me alonguei... A tarde dei uma choradinha. Entrei em um debate no grupo do GESTA no facebook e a mulherada me deu bastante força e falou dos três “hots”: sexo quente, banho quente, comida quente. Sobre o sexo, fisicamente estava impossível... banho quente, tomei no chuveiro. E, naquela noite fiz uma torta de sardinha cheia de pimenta. Depois de comer a torta, senti umas dorzinhas que pareciam cólica intestinal, pensava que fossem contrações de BH... Por volta das 21 horas continuei conversando com as meninas do GESTA no facebook e a Marília propôs de fazermos meu “chá de bênçãos” na quarta-feira. Eu disse, amanhã não posso, pois estarei sem marido e sem automóvel... Ah, um detalhe importante é que o Zé Francisco iria para Maringá na parte da tarde, mas de repente, intuitivamente ele disse que iria dormir aqui comigo e apenas na madrugada viajaria para Maringá... Voltando a conversa com as meninas, eu postei algo do tipo: “vamos ver, pois estou sentindo umas dorzinhas nunca antes sentidas”... Desliguei no notebook e a bolsa rompeu, naquele instante, naquele exato momento. A bolsa explodiu e eu explodi de alegria. O Zé Francisco ficou todo preocupado, mas manteve a calma, me acalmando...Eu saltitante fui ao banheiro enquanto ele ligada para o Galletto. Mas, infelizmente, quando cheguei no banheiro vi no chão um sinal negativo: o liquido amniótico estava amarelo, meio verde limão... E como havia participado dos grupos, estudado, lido muito sobre parto e suas particularidades, percebi que não era um bom sinal... Mesmo assim estava feliz, pegamos as bolsas, a bola gigante que comprei para fazer exercícios e ajudar no trabalho de parto. Fomos para o Hospital Araucária, chegamos lá por volta das 22h... A enfermeira me examinou, viu que estava com 3 para 4 cm de dilatação, notícia boa! Senti-me maravilhada, emocionada... Mas logo veio algo preocupante, pois deu alteração no cardiotoco. O bebê estava com os batimentos normais, mas sem reação. Isso me deixou totalmente vulnerável e preocupada, logo, minha pressão subiu e ficou 15 x 10... aí foi a gota d’agua. A enfermeira ligou para o médico e ele mandou me internar. Ela foi muito simpática e considerou meu desejo de ter o parto normal no leito, deixando-me em um quarto sozinha (que meu plano não cobria), apenas para dar a luz se tudo desse certo, depois eu mudaria para o quarto duplo. Mas, assim que o médico chegou, me examinou, viu o liquido amniótico e disse: “isso é verde Andréa... está com mecônio”. Em seguida falou: “tenho duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa é que seu filho vai nascer hoje, a ruim é que será cesárea”. A notícia foi um golpe forte, eu questionei se não haveria outra saída e ele explicou que juntando os três elementos (mecônio + cardiotoco alterado + hipertensão), o bebê poderia entrar em sofrimento e faltar oxigenação. Então eu e o meu companheiro não questionamos mais nada. Senti raiva, tristeza, frustração, medo. Dentre todos esses sentimentos, o medo era o mais forte, mas não por mim, mas sim pelo João Pedro, medo dele ser prejudicado, sofrer. Então pensei que se tivesse que ser cesárea de emergência, que fosse logo. Quando eu vi estava na maca, sendo levada para o centro cirúrgico. Parecia que estava em um barco a deriva. Falei para o Galletto: “não vai tirar meu filho pelas pernas, como se fosse um frango” e ele disse que o bebê nasceria como se fosse um parto normal. Depois da anestesia, em 10 minutos meu filho nasceu, chorou e eu gritei “seja bem vindo João Pedro!”. Ele nasceu as 23h47 minutos. O Zé Francisco não se conteve e foi tentar pegar o filho no colo, disseram que ele não podia (só víamos vídeos de parto normal, que o pai pega o bebê, corta o cordão, etc...) .. Trouxeram aquele rostinho lindo para eu ver, encostaram no meu rosto, ele estava bem quentinho, lindo, lindo... Logo o levaram para os procedimentos. E o pai foi junto. Parece que na cesárea o pai se torna o maior protagonista. É o pai que acompanha tudo, que vai junto, que assiste o primeiro banho, que cuida, que protege. Ainda bem que meu companheiro, meu amor, o pai do meu filho estava lá, protagonizando e dando seus primeiros passos como pai. Por outro lado, eu me senti um pacote. Anestesiada, ansiosa. Mas em nenhum momento me senti violentada ou desrespeitada... Em uma hora estava com meu filho no colo, amamentando-o, emoção igual não existe. Vale colocar aqui neste relato que eu e o Zé Francisco havíamos acordado que confiaríamos no Galletto e, se por ventura, acontecesse do médico dizer que teria que ser cesárea, iríamos fazer sem muito estresse. Foi justamente o que aconteceu. Não sei se as coisas poderiam ter sido diferentes. Não sei se meu filho poderia ter nascido de parto normal. O que sei é que aceitamos a indicação médica por amor a ele. Para mim, o parto normal seria o “ponto final” da gestação da forma que idealizei. Para o João Pedro, o parto (independente se normal ou cesárea) seria as “reticências” de uma vida longa que estava por vir. Escolhemos as reticências, os três pontinhos que exprimem continuidade, dialética, movimento. Cesárea não é parto? Tecnicamente não é, mas a cesárea foi a forma que meu filho veio ao mundo, foi o “parto” dele, foi de onde ele partiu! É certo que carregarei para sempre um sentimento de frustração. A bola gigante ficou no carro, não foi usada. As dores dos pontos foram como dores na alma. Outra coisa que me deixou bem triste foi perceber que as pessoas pró-cesárea comprovaram suas teses de que eu não conseguiria ter um parto normal. Todavia também sei que essas pessoas não fazem isso por mal, mas sim por ignorância (no sentido estrito da palavra). E, o que vale realmente a pena, o que verdadeiramente transborda é a felicidade de que nosso rebento rebentou feliz! Ele nasceu quando quis, quando estava pronto... Nasceu bem, é uma criança linda, que foi a atração do dia naquele hospital, por conta dos seus 4.190 gramas e 52 cm... Ele nasceu sorrindo, pois nasceu amado. É amado. Agora estou eu aqui aprendendo a ser mãe... Aprendendo a lidar com as delicias e angustias que acompanham as mudanças revolucionárias que um filho traz, afinal de contas, o rebento rebentou!!!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Angustias e alegrias da espera... (parte 2 - espera do nascimento)

Depois do resultado positivo a angustia tomou outro lugar: o inicio da gravidez. Medo de aborto espontâneo, cuidados com a alimentação. Enjôo, azia, sono... Cansaço. Quanto cansaço. Nunca imaginei que seria assim... E, neste contexto uma meta foi estabelecida: a conclusão do doutorado ainda em 2012. No começo foi complicado, pois a dedicação que a tese exigia não combinava com os sintomas do primeiro trimestre da gravidez... E isso fazia a angustia apertar. Mas logo pude viver uma grande alegria: primeiro ultrassom, que vi a vida pulsando, cintilante, bela, com um coração tocando um forte samba. Fiquei extasiada... A emoção foi só minha, pois acabei não levando o Zé Francisco, não pensei que seria tão lindo.... Até que fizemos a segunda ultrassom que, a meu ver, é a mais emocionante de todas, pois contemplamos nosso filhinho nadando na água, formadinho dando cambalhotas e no meio das perninhas vimos o pênis do menino que viria (virá) para separar nossas vidas em antes e depois dele, nossa vida se divide em AJP – DJP (“Antes do João Pedro” – “Depois do João Pedro”). Neste período nossa vida como casal foi se acertando e os problemas que vivíamos foram sendo superados. Ele foi contratado como professor colaborador da UEM. Eu em licença da UEL, totalmente dedicada a tese. A angustia do segundo trimestre se referia muito mais a finalização do doutorado, que a gravidez propriamente dita. A conclusão da tese não foi fácil, pois um filho, antes mesmo de nascer, muda o nosso foco, muda o nosso olhar. E o estudo sobre adolescentes explorados como mulas do tráfico de drogas na fronteira Brasil – Paraguai tornou-se algo demasiadamente denso. Mesmo assim, aos trancos e barrancos consegui terminar a tese, depositei em tempo hábil para defesa que aconteceu no dia 17/12/12. Não foi a defesa que sonhava, porém, aquela altura do campeonato, estava muito mais querendo ser mãe que doutora. Hoje sou doutora, contando os dias e minutos para que a maternidade se materialize com um choro. Já sou mãe desde o resultado positivo, mas o desejo de ter o João Pedro no colo tem se intensificado cada dia mais. Não sei porque cargas d’agua eu havia colocado na cabeça que ele nasceria de 37 semanas. Por isso, a 37ª. semana foi um marco e nada do nosso menino vir ao mundo. A 38ª semana passou. As dores no corpo aumentam, a dificuldade de locomoção, a azia, o peso (são 18 quilos a mais), tudo isso somando a ansiedade é a pura materialização da angustia. Estamos na 39ª semana e nada. Até o dia de hoje, nada de dilatação, mas, segundo o médico, o colo do útero já está preparado. Porém surgiu uma novidade no percurso: “polidramnia discreta”, ou seja, um pouco mais de liquido amniótico do que o normal (acho que 200 ml). E isso tem tirado meu sono, pois em um mundo com excesso de informações, uma grávida só pode enlouquecer buscando explicações sobre algo que poderia passar despercebido. Mas, o que mais me preocupa mesmo é a fala do médico: “deu um pouco de liquido a mais, o único problema é que se a bolsa romper de repente, a pressão da água pode levar o cordão umbilical junto. Mas é só me ligar, quando romper me avisar imediatamente”. Fui de novo dedicar horas de minha vida para entender o que seria isso, e vi que há uma chance em mil de acontecer um prolapso de cordão, porém, se acontecer pode trazer sequelas graves para o nosso filhote. E agora, a torcida para que a bolsa rompesse a qualquer momento tornou-se medo. O medo de que alguma coisa dê errado é grande. A esperança e a fé de que nada dará errado também é grande. Há um misto de sensações. As vezes choro e penso em optar por uma cesárea por medo do pior acontecer, outras vezes me sinto confiante em continuar esperando o parto normal, quem sabe, natural. Como falei acima, as vezes o excesso de informações pode enlouquecer, mas também pode prevenir. E estou aqui, pensando no que decidiremos. Mantemos nossos planos ou mudamos a rota? Essa angustia invade a alma, mas a alegria de saber que de uma forma ou outra nosso filhote estará em breve conosco ainda é maior. Mesmo assim, acho importante ter o direito de me sentir ansiosa, cansada, angustiada... No mundo dos “pecados”, parece pecado dizer: “o final da gravidez é trash”... ou dizer: “estou com medo de alguma coisa dar errada”, pois pensar assim é pensar negativo, é atrair coisas negativas...Somos cobrados por tudo e por todos. Quero ter a liberdade de falar que a espera da chegada de um bebê é um evento repleto de alegrias e de angustias. Essa é a verdade... a verdade não é a gravidez idealizada nos filmes com final feliz. A realidade é bem mais complexa, o que não tira a beleza e a alegria profunda do momento... Por isso, falo com o João Pedro: “filho querido, decida você... Acabe com a angustia boba da sua mãe. Venha da melhor maneira, venha sem sofrimento, venha sorrindo. Sua mãe e seu pai estão preparados para sua chegada. Se quiser vir hoje, venha. Se quiser vir amanhã, que seja. Só não demore muito, pois nosso amor é tão grande que chega a apertar. E é você que nos ensinará a ser mãe e pai. É você... Só você...”. Te amamos João Pedro Rocha dos Santos!!! PS: o próximo relato sera do parto!!!

Angustias e alegrias da espera... (parte 1 - espera da gravidez)

Quero falar um pouco da espera. De uma espera que revoluciona para sempre a vida humana: a espera de um filho. Essa espera vem repleta de angustias e alegrias, antes mesmo da gravidez. Relatarei sobre a espera do meu ponto de vista, de minha vivência, de minhas sensações. Antes mesmo do sinal de “positivo”, a espera já era angustiante... Muito planejamento, ovulação, posição, horário, alimentação, lua. E, depois de alguns dias, o sinal que sempre me fez “mulher” chegava: a menstruação. E a tristeza angustiante vinha acompanhada da esperança. Quando decidimos engravidar estávamos morando fora do Brasil, eu em Madrid e Zé Francisco em Lisboa. A ponte área Espanha – Portugal foi constante. E os encontros eram organizados para os dias da ovulação... A primeira tentativa foi em um Hostel em Amsterdam, tudo muito romântico... Mas, logo depois veio a primeira frustração, seguida de outras. Quando voltei para o Brasil, em janeiro de 2012, fui correndo em um médico para verificar se havia algum problema: nada! Em fevereiro fiz um ultrassom justamente no dia da ovulação, vi o óvulo lá e o médico disse: ele esta aí, se pegar te vejo em um mês. Não “pegou”, mas o que pegou foi a tristeza e o desânimo, já eram 5 meses de tentativa. Depois disso, começamos a desanimar, mas, como mulher disposta a ter um filho, permaneci atenta as ovulações... Até que observei que a ovulação de maio caia justamente na virada de lua crescente para lua cheia. Namoramos e neste mesmo dia viajei 12 horas de busão para Franca, para ter orientação do doutorado. Fiz tudo que não fazia nas outras tentativas, ou seja, me movimentei, comi mal, sei-lá, tudo que eu pensava que poderia prejudicar o processo de fecundação/nidação... Até que no dia 10/06, a menstruação não veio. No dia 11/06, fiz um jantar romântico para comemorarmos do dia dos namorados antecipado, pois no dia seguinte o Zé Francisco viajaria para São Paulo para também ter orientações do doutorado. Fiz carne seca na moranga. Enfeitei a mesa com velas. Coloquei músicas românticas ao fundo e tomamos nosso pileque com bons vinhos. No outro dia de manhã ele viajou. Fui até o aeroporto levá-lo, já angustiada com a possibilidade da gravidez e com o medo da frustração. Ao chegar em casa comecei aplicar tecidos em uma cômoda que deixamos na sala, fiz artesanato, enfeitei o móvel com tecido azul de florzinhas. Fiz os assentos da cadeira com o mesmo tecido. Mas o pensamento na possibilidade da gravidez me invadia a mente e a alma. Então fucei na internet sobre testes caseiros... Fiz todos e todos deram positivo, mas ainda estava sem coragem para fazer o teste de farmácia e constatar mais um “não”. No dia seguinte fui na aula de Yôga, ao chegar na aula a primeira coisa que a professora/amiga Nara falou foi: estou grávida. Entendi como um sinal e disse para ela: eu desconfio que também estou. Ela me estimulou a fazer exame de farmácia. Fiz, deu uma lista escura e uma clara. Desanimei, mas a Nara disse por telefone: é positivo. Eu disse, acho que não. E claro que ela me convenceu a fazer o exame de sangue. Fiz e no mesmo dia tive a resposta: POSITIVO. Essa resposta veio em um dia interessante, dia 13/06, no dia de Santo Antonio. Foram exatamente 9 meses de espera para a gravidez e, por mais que pareça piegas, a gravidez aconteceu no momento certo. A angustia deu lugar para alegria. Não falei nada para o futuro papai por telefone. Porém, coincidentemente minha família viria para Londrina naquele fim de semana. Logo falei para minha mãe sobre a gravidez, e a vinda se transformou em uma comemoração... Na sexta-feira o Zé Francisco chegou, fui encontra-lo no aeroporto com um presente muito especial.... Para explicar isso terei que voltar um pouco na história e relatar um fato ocorrido no início do nosso relacionamento... A questão é que eu trouxe de uma viagem que fiz a Cuba em 2007 um charuto para o “futuro pai do meu filho”. E, quando ele veio em casa pela primeira vez, viu o charuto e eu disse: “esse é para o pai do meu filho”... Naquele momento ele não entendeu muito bem, mas expliquei: “o homem que for o pai do meu filho ganhará esse charuto”. Passado algum tempo, quando o relacionamento ainda não tinha “nome”, ele me ligou no meio da madrugada e disse “olha, se for pra fumar o charuto, estamos aí”, foi a declaração de amor mais linda que ouvi! Portanto, o presente que levei pra ele no aeroporto foi o charuto. Ele abriu, não entendeu muito e logo caiu a ficha. Ficou impactado com a notícia. Parecia feliz, porém preocupado, pois naquele período vivíamos algumas barras com relação a grana, etc... ele ainda estava a procura de trabalho no Paraná, enfim, a notícia foi uma bomba maravilhosamente bela. E o coitado chegou em casa, meus pais já estavam aqui... e ele, impactado. Talvez repleto de alegria e angustia. E o pileque do jantar do dia dos namorados foi o ultimo que pude desfrutar. E alegremente embarcamos na viajem da maternidade/paternidade...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um desabafo sobre a racionalidade irracional do mundo acadêmico

Vamos lá… Até o final do mês de setembro deste ano eu pensava que iria concluir minha tese de doutorado enviar para meu orientador. Ele iria ler, fazer algumas indicações. Eu corrigiria e depois contrataria um profissional para a revisão gramatical e ortográfica. Então, mandaria alguém imprimir os dez exemplares e depositaria no programa no máximo no fim de outubro, início de novembro. Defenderia, a banca sugeriria novas alterações pontuais, eu corrigiria e entregaria a versão final na biblioteca. Lógica aparentemente normal, não? Não. No programa de pós que estudo não é assim. Descobri que teria que enviar à biblioteca e a equipe de lá teria o prazo de um mês para fazer as correções e que eu só poderia depositar o material depois da autorização da bibliotecária. Foi a partir desta descoberta que meus problemas se iniciaram, pois passei a me preocupar mais com formas e normas, que com conteúdo. A ditadura das normas invadiu a minha relação com a tese, transformando-a em uma relação desgastante, fazendo com que o “tesão” de tecer uma tese fosse para o ralo. Por conta da gravidez, a questão dos prazos da biblioteca foram sendo ultrapassadas (gravidas possuem alguns privilégios!), mesmo assim, eu não aguentava mais papo do tipo: “aqui o ponto final é depois dos parênteses, aqui o ponto final é antes”. E fui entrando no meu limite. Um desgaste físico, mental e emocional tremendo. A moça foi ajudando a arrumar para conseguirmos o cumprimento do prazo mais importante: depósito da tese no dia 14/11/12. E assim as coisas foram seguindo e eu fui perdendo o protagonismo diante da minha tese. Até que no “fim final”, quem colocou o ponto final na tese foi a moça da biblioteca, não foi eu. Me senti mal, impotente e frustrada, pois vi a tese se transformar em um objeto determinado por normas externas. Neste sentido, a tese deixou de ser vista como um produto decorrente de um processo que demandou tanto esforço e dedicação. A forma se sobrepôs ao conteúdo. Que racionalidade é essa? Essa racionalidade é tão irracional que transforma a banca em uma convecção. O momento crucial, no qual os convidados proporão ajustes (pontuais, espero!), os quais poderiam aprimorar o trabalho final, fica apenas para futuras publicações, não para o trabalho que estará nas bibliotecas, no site do Domínio Público. Por quê? Porque a tese já foi entregue, carimbada, vacinada e TRAVADA. Se a preocupação fosse com o conteúdo, o programa me daria um prazo para arrumar o material depois da defesa, mas a preocupação é com a ditadura dos órgãos que fiscalizam os programas de pós graduação, com o máximo de defesas em um ano, com a racionalidade irracional que determina o mundo acadêmico. Estou aqui escrevendo isso enquanto alguém tenta imprimir e encadernar a tese para ser entregue ainda hoje, 14/11/12. Hoje é o prazo máximo, pois a defesa será dia 17/12/12 sendo, portanto, essencial que os exemplares cheguem às mãos dos membros da banca o mais rápido (im)possível. Membros que merecem todo respeito pois foram solidários e toparam a realização de uma banca quase na véspera de Natal. Espero, sinceramente, que dê tudo certo, pois minha tese não é um objeto normativo, mas sim, um produto de corrente de um processo reflexivo, não o melhor do mundo, mas é a materialização do meu processo reflexivo. De qualquer forma, vamos lá, seguir enfrente, pois a defesa será ainda este ano e para mim, é isso que importa agora! .................................................................................................................................................Nota: não estou criticando a equipe da biblioteca (ao contrário, só tenho a agradecer, pois acabaram me ajudando muito), mas crítico o modelo em que os processos estão inseridos.